O governo não esperou sequer completar uma semana do resultado das eleições para dar o mais claro sinal de que mentiu, e feio, durante toda a campanha principalmente no que dizia respeito a economia. Enquanto Dilma e o PT tentaram, com sucesso, desconstruir o discurso de Marina Silva (PSB) no primeiro turno tentando colar a imagem da ex-senadora com a de Neca Setúlbal, herdeira do Banco Itaú, muito se especulava na imprensa a respeito das medidas que a presidenta tomaria no campo econômico se, de fato, fosse reeleita.
Na época do primeiro turno a presidenta-candidata fez duras críticas a Marina Silva principalmente quando a socialista defendeu a independência do Banco Central. Para o PT aquele seria, somado a algumas coisas menores, o "calcanhar de Aquiles" da candidatura de Marina. A estratégia deu certo e, pouco a pouco, eles conseguiram minguar a adversária deixando-a com um amargo terceiro lugar nas apurações do último dia 05 de outubro.
Com Aécio Neves no páreo do segundo turno a questão econômica parecia ser razoavelmente mais fácil de ser tratada. Isso porque o tucano havia anunciado, de maneira prematura, aquele que poderia vir a ser o seu ministro da fazenda. Dilma e o PT, mais uma vez, encontraram a brecha que queriam para poder bombardear o senador mineiro com críticas, ataques e propagandas na TV infindáveis que diziam mais a respeito da vida e das opiniões de Armínio Fraga do que do próprio candidato de oposição. O discurso adotado pela campanha petista era um velho conhecido do cidadão brasileiro: a política neoliberal do PSDB versus a política de interferências do PT.
Durante essa guerra de posicionamentos o mercado financeiro fez pesquisas de intenção de voto, aguardou com ansiedade e apreensão os números de institutos respeitados e a bolsa de valores do Brasil virou uma verdadeira montanha russa com uma simbologia: se Aécio subia, a bolsa subia; se Dilma subia, a bolsa caía.
Houve, na última segunda-feira, um cenário de pânico e incertezas bastante semelhante ao de outubro de 2002 quando, pela primeira vez, o PT havia sido eleito para governar o Brasil. O presidente eleito da época que era Lula - tratou logo de anunciar o nome de Henrique Meirelles para poder acalmar os ânimos dos investidores e receber um país com um mercado ainda trêmulo, mas que não gritava. O primeiro ano de mandato do petista foi marcado pela manutenção dos pilares principais herdados por FHC com pontuais mudanças na política macroeconômica que, com o passar do tempo, foram tomando forma e conteúdo. Futuramente os investidores estavam bem mais amigáveis no que se referia à figura do presidente da República.
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| O governo, encurralado, vai adotar medidas que criticou na campanha Foto: reprodução |
Trocando em miúdos é curioso notar que Dilma, que tanto bateu em Marina e em Aécio no primeiro e no segundo turno das eleições, agora tenha que tomar as mesmas medidas que tanto criticou dos adversários. Algumas delas já começaram a sair da teoria, como o aumento da taxa básica de juros, o aumento nas alíquotas de energia elétrica de algumas regiões do país, o já anunciado aumento pontual da gasolina para esse mês e, talvez o mais importante de tudo, a [quase] garantia de que o próximo ministro da fazenda será oriundo de um grande banco privado. Tudo isso leva a crer que, no quesito economia, o novo governo Dilma já começa desconstruindo a si mesmo.

