sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Medidas adversárias na economia

O governo não esperou sequer completar uma semana do resultado das eleições para dar o mais claro sinal de que mentiu, e feio, durante toda a campanha principalmente no que dizia respeito a economia. Enquanto Dilma e o PT tentaram, com sucesso, desconstruir o discurso de Marina Silva (PSB) no primeiro turno tentando colar a imagem da ex-senadora com a de Neca Setúlbal, herdeira do Banco Itaú, muito se especulava na imprensa a respeito das medidas que a presidenta tomaria no campo econômico se, de fato, fosse reeleita.
Na época do primeiro turno a presidenta-candidata fez duras críticas a Marina Silva principalmente quando a socialista defendeu a independência do Banco Central. Para o PT aquele seria, somado a algumas coisas menores, o "calcanhar de Aquiles" da candidatura de Marina. A estratégia deu certo e, pouco a pouco, eles conseguiram minguar a adversária deixando-a com um amargo terceiro lugar nas apurações do último dia 05 de outubro.
Com Aécio Neves no páreo do segundo turno a questão econômica parecia ser razoavelmente mais fácil de ser tratada. Isso porque o tucano havia anunciado, de maneira prematura, aquele que poderia vir a ser o seu ministro da fazenda. Dilma e o PT, mais uma vez, encontraram a brecha que queriam para poder bombardear o senador mineiro com críticas, ataques e propagandas na TV infindáveis que diziam mais a respeito da vida e das opiniões de Armínio Fraga do que do próprio candidato de oposição. O discurso adotado pela campanha petista era um velho conhecido do cidadão brasileiro: a política neoliberal do PSDB versus a política de interferências do PT.
Durante essa guerra de posicionamentos o mercado financeiro fez pesquisas de intenção de voto, aguardou com ansiedade e apreensão os números de institutos respeitados e a bolsa de valores do Brasil virou uma verdadeira montanha russa com uma simbologia: se Aécio subia, a bolsa subia; se Dilma subia, a bolsa caía. 
Houve, na última segunda-feira, um cenário de pânico e incertezas bastante semelhante ao de outubro de 2002 quando, pela primeira vez, o PT havia sido eleito para governar o Brasil. O presidente eleito da época  que era Lula - tratou logo de anunciar o nome de Henrique Meirelles para poder acalmar os ânimos dos investidores e receber um país com um mercado ainda trêmulo, mas que não gritava. O primeiro ano de mandato do petista foi marcado pela manutenção dos pilares principais herdados por FHC com pontuais mudanças na política macroeconômica que, com o passar do tempo, foram tomando forma e conteúdo. Futuramente os investidores estavam bem mais amigáveis no que se referia à figura do presidente da República.
O governo, encurralado, vai adotar medidas que criticou na campanha
Foto: reprodução
Trocando em miúdos é curioso notar que Dilma, que tanto bateu em Marina e em Aécio no primeiro e no segundo turno das eleições, agora tenha que tomar as mesmas medidas que tanto criticou dos adversários. Algumas delas já começaram a sair da teoria, como o aumento da taxa básica de juros, o aumento nas alíquotas de energia elétrica de algumas regiões do país, o já anunciado aumento pontual da gasolina para esse mês e, talvez o mais importante de tudo, a [quase] garantia de que o próximo ministro da fazenda será oriundo de um grande banco privado. Tudo isso leva a crer que, no quesito economia, o novo governo Dilma já começa desconstruindo a si mesmo.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O Congresso bonachão

Especialistas em política tem analisado que o governo iria enfrentar, nesse restinho de legislatura, deputados com os mais variados ânimos: alguns felizes pela reeleição e, quem sabe, até pela eleição de amigos e parentes, alguns infelizes por terem perdido suas vagas e outros um tanto quanto rancorosos por terem perdido, além da vaga, o prestígio ou em seus estados, ou com a presidência.
Esse Congresso Nacional recheado de sentimentalismo não faz bem para a democracia brasileira e, esperto como é, o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que após sair derrotado das urnas na corrida pelo governo do seu estado endossa a turma dos descontentes, prometeu aos colegas que iria colocar na pauta o reajuste dos salários de suas excelências.
A proposta de aumento dos vencimentos dos deputados é bastante simples: já havia na mesa diretora a proposta de equiparar os vencimentos dos legisladores com aqueles recebidos pelos ministros do Supremo Tribunal Federal.
Hoje, para se ter uma ideia, um ministro do STF recebe cerca de R$ 29.400,00, enquanto um deputado federal recebe algo em torno de R$ 26.700,00. Ou seja: um aumento de quase três mil reais deve, por ora, acalmar os ânimos da casa que já se mostrou, na primeira votação, extremamente hostil. É o tipo de matéria que não precisa sequer de cobertura jornalística em cima porque, o cidadão achando bom ou não, é a matéria mais fácil de ser aprovada nesse que pode aparentar o período de transição mais difícil dos últimos dez anos. 

Governo novo, problemas novos


A presidenta Dilma Rousseff (PT) foi reeleita numa disputa imprevisível, confusa e cheia de altos e baixos. No último domingo (26) mais de 54 milhões de pessoas consolidaram e referendaram, mais uma vez, o mesmo projeto que já vem governando o país desde os idos de 2003. Mas, ao que tudo indica, o cenário político mudou nas ruas e essas mudanças estarão também refletidas dentro das paredes do Congresso Nacional.
O PT, partido da presidenta, perdeu 17% das cadeiras na Câmara dos Deputados e se viu, após o resultado dessas eleições, mais dependente ainda do posicionamento do PMDB.
O governo tem ampla maioria na Câmara e no Senado, mas isso nem de longe atende como um fator de tranquilidade ao Planalto. O PMDB vem se mostrando um partido extremamente hostil e volátil o que, se traçarmos um paralelo histórico, não é nenhuma novidade. Ele, o PMDB, não tem a obrigatoriedade de ser cem por cento fiel ao projeto petista porque não carrega nem as cores, nem o número, nem a ideologia do partido da estrela e isso dá aos seus representantes uma certa liberdade para dialogar, exigir e barganhar.
É interessante ressaltar aqui os diversos segmentos que existem dentro de uma casa tão plural como a Câmara dos Deputados: bancada evangélica, bancada ruralista, bancada empresarial, bancada sindical, bancada dos direitos humanos e outras séries de bancadas são apenas alguns exemplos de como uma das nossas casas de leis se comporta nesse complicado jogo do poder. O PMDB tem deputados de todas essas bancadas, mas não só isso, existem também diferenças regionais que criam alas "rebeldes" dentro de uma mesma sigla. Ainda que minoria, essa ala abastada terá que ser afagada pelos gracejos de uma presidenta que, no primeiro mandato, mostrou-se pouco amigável aos legisladores e por isso mesmo tentou, por diversas vezes, aprovar projetos com base no grito, na pressão e nas ameaças.
Pelo que indicou o discurso da vitória no último domingo, Dilma e o seu novo governo estariam dispostos a dialogar mais com o Congresso na busca por um denominador comum, mas as perspectivas não são tão animadoras e otimistas assim.


O novo executivo tende a enfrentar um Congresso difícil
Para começar o PSDB anunciou hoje que vai, pela primeira vez em muito tempo, brigar pelas presidências das casas e que não vai mais se aliar aos grandes por um papel de coadjuvante nas mesas diretoras. Esse posicionamento astuto e organizado da oposição mostra que as urnas inflaram os pulmões desses futuros representantes que se acham no direito de entrar no páreo a partir do ano que vem. A ideia da oposição é muito simples: unir todos os partidos que já eram contrários e somar-se a outros que aderiram a campanha do senador Aécio Neves (PSDB-MG) no segundo turno. Esse é o caso do PSB que terá, nesse sentido, um papel importantíssimo para agregar legendas menores mas que, na contagem dos votos, serão extremamente relevantes.
Como se não bastasse essa situação inédita no governo Dilma, a própria bancada governista parece que irá brigar entre si já que, ao que tudo indica, tanto o PT como o PMDB irão brigar para ver quem consegue a presidência de tal casa. Ambos os partidos haviam selado um acordo de revezamento que se encerra agora em dezembro e, ao que parece, o PT não se sente confortável em assinar esse termo mais uma vez, embora tenha que ser ver menor em 2015 do que estava em 2011.
Apesar de tudo isso não será muito difícil unir as siglas amigas - PT e PMDB. Basta apenas uma boa conversa, longa e respeitosa, cujo ego presidencial não se sobreponha à importância do novo Congresso Nacional que terá em sua pauta temas bastante importantes como, por exemplo, a pseudo-reforma política e tributária prometida por todas as candidaturas no período eleitoral. Ainda há muito nevoeiro nos corredores de Brasília e é necessário, nesse sentido, esperar a poeira abaixar.